Saudades de quando se era uma coisa só

Você se lembra de quando apresentar alguém era simples? “Esse é o Paulo,
ele é médico.”
Ponto final. A frase cabia numa linha, a identidade cabia numa
palavra.


Hoje, Agora todo mundo é plural profissional. A mesma apresentação virou um
podcast. “Essa é a Glaucianne: advogada, mentora, professora, consultora
jurídica, criadora de conteúdo, host do Conversa Fiada…”
— e enquanto
falo, já percebo o olhar da outra pessoa calculando se ainda vai ter tempo para
o almoço.

Ser uma coisa só virou sinônimo de ser menos. Ninguém diz explicitamente,
mas o clima é esse. Você apresenta sua profissão e, antes que a frase termine,
já sente as reticências no ar: “Tá, e o que mais? Só isso?”

“Em algum momento, a carreira deixou de ser um
caminho e virou um cardápio.”


Eu não sei exatamente quando aconteceu essa virada. A gourmettização
profissional chegou silenciosa, como quase tudo que muda estruturalmente a
nossa vida. Um dia Tony Ramos era ator — e todo mundo, da criança de três
anos ao avô de oitenta, sabia quem ele era e o que ele fazia. Não precisava de
bio no Instagram, não precisava de “mentor de atores em transição de
carreira”. Era ator. Fim.

Essa geração singular existe, e ainda vive entre nós. Tem mais de 35 anos, em
geral, e quando você apresenta seu décimo título profissional, ela olha com
uma mistura de admiração e genuína perplexidade. Não é maldade. É
estranhamento. Porque para ela, identidade profissional era algo estável, não
um documento editável a cada trimestre.

O problema não é a multiplicidade em si. O problema é quando ela deixa de
ser uma escolha e vira uma exigência. Quando você precisa ser várias pessoas
ao mesmo tempo — e cada uma dessas pessoas tem agenda, entrega,
expectativa e cobrança própria. Tal hora você não sabe mais o que está
fazendo, nem se a prioridade é a advogada, a professora, a mentora, a esposa,
a criadora de conteúdo. Você só sabe que está cansada.

Não é coincidência que a epidemia de doenças mentais tenha crescido
exatamente no mesmo período em que as identidades profissionais se
multiplicaram. Quem acha que é moda ou frescura, provavelmente nunca
precisou gerenciar cinco versões de si mesmo antes do almoço.


Eu comecei a tomar Venlafaxina 75mg aos 35 anos. Toda noite. Há três anos.
Não escrevo isso em busca de comiseração — escrevo porque acho que a
honestidade tem mais valor do que a performance de invulnerabilidade que as
redes sociais tanto vendem. E porque sei que tem gente de 18, de 20 anos
começando o mesmo caminho muito antes do que eu comecei.


A gente jurava que os Jetsons tinham razão. Que o futuro seria mais leve, mais
inteligente. Mas quem acertou foi o roteirista de Black Mirror: o futuro
chegou cheio de possibilidades, e nenhuma delas veio com manual de saúde
mental.


Não tenho uma solução empacotada para oferecer no final desse texto. Tenho
apenas a convicção de que nomear o que sentimos já é um começo. Que
saudade de ser uma coisa só não é fraqueza — é lucidez. E que talvez a
pergunta mais corajosa que possamos fazer hoje não seja “no que mais você
trabalha?”, mas sim: “do que você realmente não abre mão?”

Começa por aí. Saudades.